sobre mocinhos e vilões.

Eles usam maçãs envenenadas, armas de destruição em massa ou as próprias mãos. São leões, extraterrestres, zumbis e pessoas. Permanecem no limiar entre o repugnante e o atraente. Por que somos fascinados por vilões?

Sem ter a mínima pretensão de provar – ou sequer sugerir – a tendência à crueldade em cada um de nós, preciso discordar de Rousseau e sua teoria do “bom selvagem”. Segundo o filósofo, o homem seria um ser naturalmente bondoso e inocente, corrompido pela sociedade. Longe de acreditar que a maldade é inerente ao ser humano, penso que o individualismo é. O homem nasceria com um instinto natural de autopreservação que o faria agir pensando primeiramente em si, sem noções de limites ou regras de conduta. Porém, ainda bebês aprendemos o que é culturamente certo. O errado é tolido é delegado ao submundo das emoções humanas. É negativo para a coletividade, gera uma série de problemas.
Já leram “O Senhor das Moscas”? É mais ou menos assim. Sem as amarras da sociedade, isoladas em uma ilha, um grupo de doces crianças acaba revelando traços de tirania e crueldade. Visando a sobrevivência e o poder, defendem interesses próprios a todo custo. Não somos serial killers em potencial, mas sem as leis e regras – sejam estas previstas na Constituição ou aprendidas em casa –  acredito que teríamos uma propensão maior à selvageria. Claro que esse pensamento incomoda muita gente, afinal, somos seres humanos. Superiores, dotados de racionalidade. Parece incoerente que exista uma tendência ao caos.

Enfim, do que eu estava falando mesmo? Ah, claro, vilões. Essa história foi basicamente para resumir um dos pontos que justificaria nossa atração pela vilania. Todos eles extravasam e personificam emoções relativamente naturais em cada um de nós, suprimidos a todo instante. Inveja, raiva, egoísmo. Não nos identificamos com a maldade em si. Ninguém pretende pegar um sabre de luz e cortar cabeças – eu acho. Mas conseguimos entender os sentimentos, são mais humanos do que a santidade e a benevolência dos heróis. Mocinhos fazem com que nos sintamos pequenos; diminuídos perante sua glória, sua grandeza, seu altruísmo sem medidas. Mocinhos estão em um pedastal fora do nosso alcance; vilões rastejam na lama. Lembram que por vezes também somos mesquinhos. Incomodam e aliviam, de uma maneira completamente paradoxal.

Outra fator certamente determinante é a maneira como roteiristas e produtores constroem seus personagens. Por muito tempo, só conhecemos o preto e o branco, o bem e o mal. Até que surgiram as escalas de cinza. Os complexos, as motivações, as dúvidas. Surgiram alguns vilões geniais, afastados do estereótipo clássico e distantes dos planos de dominação mundial com risadas maléficas. E os heróis? Continuam no pedestal. Epítomes da sabedoria, acima de qualquer sentimento mundano. Para não ser injusta, digo logo que existem heróis fantásticos, projetados com maestria. Mas ainda prevalecem aqueles que o público classificaria como “sem graça”.

Fiz uma pesquisa rápida com amigos antes de começar esse texto. Perguntei quais eram seus vilões favoritos. As respostas foram bem variadas: Darth Vader, a jovem promessa que cedeu ao lado negro; a dupla-personalidade conflitante de Gollum; o canibal Hannibal Lecter e o quase shakesperiano, Scar (alguém dúvida de que “Rei Leão” seja “Hamlet”, na savana?). Outro que merece destaque é Benjamin Linus, o personagem absolutamente imprevisível de “Lost”, situado em algum ponto entre a verdade e a mentira, pecado e redenção. E como esquecer do Coringa, cujos objetivos e motivações não vão além do completo caos?

Impossível não ficar intrigado com essas figuras. Nosso fascínio é justificado. Contudo, acho que o grande acerto é criar personagens que tenham em si a luz e a escuridão. Assim como cada um de nós. Um desses exemplos seria Gregory House, personagem principal da maravilhosa série de mesmo nome. É o médico e o monstro; Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O mérito de House é conseguir expor tantas nuances, tantas facetas com tamanha suavidade e inteligência. Não nega, não afirma, não mostra o certo ou o errado. Sugere. Traz o incompleto, o triste. E o que salva vidas. Oscila como o ser humano e atrai como nenhum mocinho ou vilão.

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