dicotomia.
Acredito que não existe uma maneira de dobrar à direita ou virar à esquerda sem encontrar uma bifurcação. Não precisa abrir o mapa; não me refiro a endereços, mas ao radicalismo nas concepções políticas. Assumo: eu sou uma extremista. Qualquer um que me conheça há mais de 2 horas sabe que adoro fazer longos discursos empolgados reiterando minha paixão por coisas banais como o cappuccino da esquina, ou meu ódio mortal por algum filme. Sou assim com praticamente tudo. As únicas exceções são exatamente as duas coisas que mais provocam debates calorosos em mesas de bar, almoços de domingo ou cadeiras de universidades: religião e política.
Em relação à primeira, me apego à certeza de que nada posso afirmar e me considero agnóstica. Já sobre a segunda, se fossem necessários rótulos que procuro evitar, me consideraria uma esquerdista. Apóio o investimento em determinadas políticas sociais e um Estado presente o suficiente para suprir necessidades como educação e saúde, além de fiscalizar as “mãos invisíveis” do mercado e seus demais tentáculos. Tudo conduzido com consciência e transparência, sem delírios de grandeza.
Contudo, procuro analisar cada situação de maneira equilibrada, sem assumir posições precipitadas ou sair por aí culpando o sistema sem conhecimento de causa. O que tentei expressar na primeira frase foi exatamente isso. Penso que o mais lógico – ao invés de bravatas e disputas ideológicas – seria procurar soluções conjuntas. Minha sugestão provavelmente é mais utópica do que a idéia de Thomas Morus, mas não posso evitar pensar que o atual estado das coisas só reforça o caráter de espetáculo de qualquer medida. Há uma constante tentativa de demonizar oponentes ou escolher lados que personificariam o bem e o mal, como se tudo pudesse ser traduzido nessa simples equação.
Como o próprio Guy Debord – aquele da Sociedade do Espetáculo – explicou, a insatisfação tornou-se também uma mercadoria. Muito é dito, muitos dedos são apontados, sem que nada de novo seja sugerido ou posto em prática. Grande parte dessa responsabilidade pode ser atribuida ao radicalismo e à alienação. Sem conhecimento e reflexão, existirão sempre dois lados gritando palavras ao vento. Mudanças, revoluções e reais tentativas de melhora acabam se perdendo no vazio do espetáculo, transformadas em mera imagem para consumo vazio, sem consistência. Não estou apoiando um multilateralismo cínico e hipócrita que só serve aos próprios interesses e preocupações individuais. Mas sugerindo uma interpretação de cada situação com cautela, sem escolher vilões e mocinhos e se perder em argumentos ridículos.
Não sei se consegui ser clara. Esse assunto é extremamente delicado e subjetivo. O que me motivou a escrever foi minha incompreensão diante do aparente fracasso dos esforços do presidente Barack Obama em implantar um sistema de saúde pública, nos Estados Unidos. Seu projeto é ignorado ao som de acusações de “comunismo” e “socialismo”. Toda a racionalidade da proposta é reduzida a rótulos, suposições, gritos sem sentido e tentativas de ridicularizar o oponente. Muitos nem ao menos sabem do que se trata.
Enfim, esse texto pode ser tudo, menos uma ode à esquerda ou à direita. Eu o classificaria como uma tentativa de louvar a reflexão, a compreensão e a análise cautelosa das situações, antes de levantar quaisquer bandeiras.
***
Na segunda-feira, eu, Sofia e mais alguns amigos assistimos o novo Tarantino, “Bastardos Inglórios”. Além de um torcicolo por ter sentado na 3ª fileira e a certeza de que meu alemão é uma droga, saí do cinema com a impressão de que tinha acabado de assistir um dos melhores filmes do diretor. E, quem sabe, um dos melhores filmes que já vi. Comento mais sobre ele na próxima semana.
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- Published:
- 22/10/2009 / 9:59 AM
- Tags:
- Bastardos Inglórios, Megazine, Política
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